quarta-feira, 8 de junho de 2016

Karma-Leão

Há uma flor,
Uma flor que sonho
Com a qual eu sonho
Em noites tranquilas.

Mas era noite febria.

Havia uma flor
Desapareceu.

Não era mais sonho,
Não havia flor
Nem suas pétalas voando
Como dentes-de-leão

Havia um monstro
Devorando
Escuridão.

O monstro, símbolo da mudança
Do tamanho de uma criança
Da janela, projetava seus olhos


Olhos móveis, injetados de rancor
Que ninguém via, não havia flor
Ele iria... não faça isso, eu imploro

Não adiantou.

Havia um monstro
Te devorando
Um camaleão.

Karma-leão.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Arqueólogas

Ela espanava a terra seca. Uma gota de suor escorreu da testa dela, desconcentrando-a um pouco. Ela descalçou suas luvas e secou a gota em um gesto rápido, com as costas da mão, e lançou um longo suspiro e olhou pra cima. Ceú azulzinho, com sol a pino. Ninguém poderia acreditar, se ela contasse, que havia horas em que a arqueologia cansava tanto quanto uma maratona. Ainda mais em dias assim.

Ouviu chamarem seu nome. Do outro lado, a sua xará de nome, envolta pela terra vermelha e barro seco, levantava a voz ansiosa. "Érika, vem cá! Preciso que você de uma olhada nisso!".

Lá foi a arqueóloga, abandonando sua tarefa de espanar um dos pontos de pesquisa, para atender sua xará. Desceu o desnível que estava e encontrou-a também concentrada, sentada com as pernas cruzadas, quase enfurnada na boca de um buraco horizontal no barranco acostado. O buraco era menor que meia pessoa em largura e altura e profundidade, e provavelmente fora cavado pela própria xará.

- Consegue ver daí? - a xará perguntou, sem levantar e nem olhá-la.
- Ver exatamente o quê?
- A placa. Acho que é gesso. Consegue ver?

A arqueóloga cerrou os olhos, focando no que havia dentro do buraco. Identificou o que sua xará se referia: era mesmo uma placa, ou pelo menos o relevo de uma, no qual algumas linhas incrustadas indicavam o início de um desenho. Érica (a xará), espanou mais umas vezes a placa.

O desenho revelou-se: um círculo de pessoas, com braços unidos. De mãos dadas, como em uma ciranda. "Nossa", suspirou a xará e a olhou:

- Nossa, isso me lembra muito uma lenda que eu ouvia quando menor.
- Que lenda? - perguntou a arqueóloga, sentando ao lado da xará.
- Ora, Doutora, sabe da paz que os povos Barothak firmaram nestas terras durante quase meio milênio?
- Sim. E?
- Então... o que aprendemos na faculdade é que uma diversidade de fatores combinados levaram os povos a guerrear após meio milênio "da grande paz". Escassez de recursos naturais, decisões políticas ambiciosas e ruins, essas coisas.
- Sim, sim. Isso eu sei. Mas e daí? - antecipou a arqueóloga, impaciente.
- Então... Os antigos contam, e minha vó em especial sempre disse isso, que a verdadeira causa do fim da paz entre os povos Barothak foi a mudança em um costume tradicional deles.

Érika encurvou as sobrancelhas, com uma expressão facial de descrédito e dúvida. Estava prestes a interromper com novas perguntas sua xará, quando esta continuou:

- Vovó contava que os Barothak acreditavam que nenhuma decisão poderia ser tomada por mais de uma pessoa se essas pessoas não estivessem de mãos dadas. Era um costume obrigatório, quando o assunto fosse sério, que fosse discutido e decidido com todos os envolvidos de mãos dadas.

- Mãos dadas? - perguntou a arqueóloga, mudando a feição do rosto e o tom de voz. Sua expressão deixou de ter desconfiança e tornou-se amena.
- É. Mãos dadas. Assim, ó.  - a xará disse isso enquanto pegava nas mãos da outra e as segurava.

"Para esses povos, dar as mãos significava que uma pessoa não poderia usar da força contra o próximo enquanto decidiam. Vovó explicava que era porque não tem como você atacar alguém quando está com as duas mãos entrelaçadas com essa pessoa."

A xará respirou fundo e continuou:

- O costume perdurou durante muitos séculos, mas os mais novos começaram a achar esse ritual de debater com mãos dadas antiquado. Achavam que não fazia a mínima diferença isso no fluxo das ideias, que era só uma crendice boba. Aí foram abolindo o ritual, até que os povos começaram a se tornar mais frios nas negociações com o passar do tempo. E começaram as guerras.

A arqueóloga fez um movimento de sim tímido com a cabeça, mas apenas comentou "bobagem isso". Afastou as mãos da xará e disse:

- Bela história. Mas não tem nenhum valor histórico. Vou voltar ao trabalho.

A arqueóloga levantou-se e foi. A xará olhou para ela indo, depois para o seu achado. Juntou suas mãos e lembrou do restante da história.

Afinal, depois de abolido este costume de dar as mãos com o próximo, é que nasceu o hábito de juntar as próprias mãos para orar, torcer e esperar.

Juntar as próprias mãos, em um gesto de esperança de que as mãos dadas voltarão.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Canções

Ganhei uma fita rodeada de fitas. Uma fita cassete, com quatorze canções registradas, todas gravadas dia a dia da rádio. A fita, branca e amarelo claro, ornamentada com fitas verdes, trazia um recado em letras garrafais: "Parabéns Fefe!" e um coraçãozinho desenhado em caneta hidrocor.

Trouxe a fita pra perto de mim. Sabia que ali tinha um pedaço da minha história, mas contada por outras pessoas. Movi-me para perto do som, coloquei a fita.

Play. Ouvi. A primeira canção era sobre lar. O lugar de onde sou.

O primeiro som veio de um violão, sozinho. Nunca havia ouvido a canção. A melodia, abraço de vento, tremendamente assobiável, parecia muito inspirada nas cidades de interior. Onde há varandas verdes, montanhas, cercas brancas. Dava pra ouvir, na gravação, passarinhos cantando, enquanto o vocal, um barítono manso, contava em outro idioma uma história não muito a ver comigo.

A segunda canção começou. Era sobre passado.

Um lá menor da guitarra-violão de Jimmy Page inicia ela. Essa eu conheço. O clássico dos clássicos, uma música que escutei minha adolescência inteira, voltava-se para mim. Não consegui conter o sorriso e o pensamento de que a arte, afinal, é passado sempre reinventado. Sempre resignificado.

A terceira canção seguiu, então. Era sobre coragem.

O suspiro forte encorajador é a marca registrada da terceira canção. Também conheço essa, aliás, apresentei-a para ela. É uma que exige coragem para cantar. Tanto, mas tanto, que o contexto em que ela aparece (um anime chamado "Beck") é sobre um garoto introvertido que toma coragem de ser músico. De ser ele mesmo.

O riff da próxima é sensacional. Ainda mais na versão que ela escolheu, tocada no violão, onde notas em staccato fazem ataques rápidos, como passos curtos mas incisivos. "And I wonder, when I sing along with you..." compôs Dave Grohl, e ouvi ela cantando essa frase, ainda quando nos conhecíamos, por cima da voz do Dave. Ouvi ela cantando e olhando para mim. Cantando para mim.

Apesar disso, a quarta canção era sobre esperar, desde sempre. Sobre refletir.

Já a quinta canção é sobre o estar. Sobre estado de espírito.

É mais calma. Um riff marcante, decrescente, vai construindo a história de um encontro em um café. A música reflete muito dias cinzas, mas que não são tristes. Pelo contrário, dias cinzas são confortáveis e graciosos, acompanhados de café e companhia.

Próxima canção.

A balada medieval da sexta música também me é conhecida. O nome dela é Scarborough Fair. A calma inicial dela vai misturando-se com a complexa mistura de instrumentos no desenvolver da música. A história deixa de ser sobre paz, sobre uma feira onde há amor e tranquilidade, para construir a narrativa de uma invasão militar. A sexta canção, era então, sobre mudança. Sobre evolução.

Pausei um pouco a fita para refletir. Esse era o primeiro bloco de canções, das coisas que eu mostrava para ela. Um pouco do meu lar, um pouco do que conto e carrego, um pouco das maneiras que ajo (ora corajoso, ora esperando demais), e um pouco mudança.

A sétima canção, marco da metade do disco, tem um ar de areia e calor. Com elementos que me lembram Jack Johnson, a música compassada fala sobre surpresa. Com a frase "I wasn't expecting that", o cantor descreve a evolução do seu relacionamento, de como algo simples tornou-se o centro da vida dele, até o final derradeiro. Uma música feliz demais que torna-se triste, de uma maneira muito inteligente.

Essa nova etapa de músicas, iniciada pela sétima canção, já não são tão de mim para ela, mas dela para mim. A oitava segue a mesma lógica.

A oitava canção parece ser sobre amor. As vozes, em dueto, sobrepõem o violão, que é tocado com abafado, aveludado. A canção pede amor, fala de amor, sofre amor. "Love can heal, can amend a soul".

A nona é um clássico. Música de cinema, também com dueto, com violão cristalino. Música para cantar olhando nos olhos do seu dueto. O crescendo final da música é puro sentimento, apesar do apelo pop.

As próximas canções formam um novo bloco. Há uma mudança essencial: o idioma agora é português. É ela me dizendo para esquecer um pouco o aspecto instrumental, e ouvir o que cada canção tem para dizer.

A décima e décima primeira canções são do Vanjor, um amigo dela, um excelente cantor e compositor. As duas são sobre amor, usando o olhar como fonte primordial. Mas a décima é o olhar de celebração, cheio de esperança, de quem encontrou amor, enquanto a décima primeira é do olhar de admiração, de respeito, de quem está em um relacionamento longo.

A décima segunda canção é... é só a minha canção favorita de todos os tempos.

Tempo Perdido, da Legião Urbana. Mas na voz do Tiago Iorc. Dessa vez, é ela reinterpretando meu passado. É ela participando de mim. A canção passa por todos os sentimentos que cada uma das onze músicas anteriores revelou. Estamos distantes de tudo, perto do fim. A fita começa a ficar escassa.

A décima terceira canção é bem agitada. Última respirada antes do final, última animada. Fala sobre uma particularidade nossa de maneira divertida: "Se fosse mudar algo em você, só mudava o endereço". Pode crer, pode crer, pensei rindo. Música feliz.

Em fim, a última canção. É um hino religioso. De repente, ouço a voz dela. "Precioso", ela diz rindo. Desligo o som e olho para trás esperando vê-la, mas ela não está no meu quarto. Pego a fita, emocionado.

Ela está na fita.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um conto sobre naturezas (ou "Só cratizando")

As pessoas tem naturezas, já notou?

Eu vivi pouco, mas o pouco do que vivi já foi suficiente para prender minha atenção em duas dessas naturezas. Haja mais, ou haja menos, essas duas eu vi e posso descrever. As outras, que por ventura existam, provavelmente são apenas combinações de elementos das duas que vou descrever.
 
A distinção das duas naturezas das pessoas está na raiz do pensamento que emana de cada. Parecem, para mim, que os desdobramentos para uma decisão ou posicionamento de uma pessoa sempre vão ter por base uma afirmativa, um "motto", um lema. Do tipo, aquele pensamento (vale lembrar que pensamentos não são o mesmo que palavras, vêm antes delas) primordial, ponta pé para ver o mundo.

Sócrates, com frequência, fazia uma coisa muito interessante: perguntar "porquês" na pessoa, até ela se contradizer. Tentei imitá-lo, mas, não sei se por falta de talento ou por motivo qualquer, não consegui desconstruir raciocínios como ele. Contudo, consegui algumas vezes chegar no motivo último da pessoa. Chamo de "motivo último" justamente a última resposta que uma pessoa pode dar no qual não há como responder mais porquês*. O motivo último é a chave para descobrir o pensamento primordial, base do raciocínio de uma pessoa. O pensamento que define a natureza da pessoa.

As pessoas da primeira natureza tem o seguinte pensamento: "Não poderei salvar ninguém, se antes não salvar a mim mesmo."

Ainda que o motivo último respondido não corresponda exatamente a essa frase, vai estar muito ligada a ela. Respostas como "porquê ninguém fará por mim, se eu não fizer" ou "cada pessoa tem que cuidar de si e de quem ama" traduzem ainda a mesma ideia central contida no lema das pessoas da primeira natureza: é preciso garantir o seu, depois o dos outros.

Já as pessoas da segunda natureza tem o seguinte pensamento: "É preciso pensar nos outros, antes de pensar em si."

Como na primeira, outras respostas possíveis e intimamente ligadas a esse pensamento seriam: " porquê se cada um só pensar em si, sempre haverá luta" ou "ninguém vive absolutamente sozinho, somos coletivos". Carrega sempre a ideia de que seus atos refletem no próximo, tanto quanto os atos do próximo refletem em si. Por isso, a preocupação com os outros em primeiro lugar.

As duas naturezas, a princípio, parecem que se complementam e que uma não exclui a outra. Ou seja, que uma pessoa poderia ter as duas naturezas ao mesmo tempo. Porém, não vi isso. Se ver, me conte.

Há muito pra falar sobre as duas naturezas. Elas vivem aparecendo nas redes sociais. Você consegue identificá-las? Sabe qual é a sua?

E, isso, se não tiver reparado, é um conto de política.


*Ah, uma observação importante: os "porquês" devem estar voltado a uma decisão ou comportamento de uma pessoa, não uma característica do mundo. Senão, a resposta última acaba sempre sendo religiosa (incluído aqui o ateísmo), por esbarrar no limite da lógica de Kant.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Belle Époque

Era uma noite daquelas, fim de noite mesmo. "Fim de carreira", ela havia dito rindo. Havia mais brahmas espalhadas pelas mesas e cantos que pessoas pelo salão, e isso era um bom sinal.

No fundo do bar, um karaokê embalava os amigos dela e os amigos que ela acabara de conhecer e fazer.

Era a sua vez de cantar. "Valeu a pena, ê ê, valeu a pena, ê ê...". Ela dava uma espiada por trás do ombro, rindo. O coro improvisado, meio disperso, balançava os braços em ondas no ritmo da música, enquanto cantavam junto o sucesso do Rappa.

Quando a música acabou, acompanhado dos "uhuls", palmas e assobios, ela abraçou rápido um de seus amigos e se desvencilhou do público para o meu lado.

- Você é a melhor que nós temos! - eu disse, rindo, dando um beijo na testa dela. Ela riu também, se aconchegando perto de mim. Levantou os olhos castanhos, em direção ao meu olhar... mas com um semblante distinto no rosto.

- Algo de errado? - perguntei.
- Tô preocupada. - ela respondeu, ajeitando uma de suas madeixas loiras.
- Com?
- É que eu tenho pensado demais em você. E tá muito recente pra isso. Tá muito rápido, sabe? Tá, tipo, errado, não sei. Proibido.

Abaixei a cabeça pra olhar ela melhor. Respirei.

- É que você está sentindo o tempo do jeito errado. - falei cada palavra devagar, com calma. Sério, mas com rosto feliz.

O rosto dela logo mudou de preocupada para curiosa:

- Do jeito errado? Você vai ter que me explicar, porque não entendi.
- Bem... lembra quando você me contou a sua história de pequena, lá em Manaus, do boi preto e boi bom e da disputa entre eles?
- Sim, sim.
- Então, você não deve ter demorado mais do que cinco minutos pra contar. Mas cada palavra sua, cada descrição, me transportava até lá. Aos poucos, eu vivenciava através de você os anos que você passou lá, alongando os cinco minutos da história pra verdadeiros dias, meses, que você viveu e compartilhou. Posso até estar enganado, mas você enquanto contava, não teve a sensação também de alongar o tempo não?

Ela não respondeu, apenas olhou mais intrigada.

- Quando eu te contei da forma que meus pais se conheceram, como você se sentiu? - perguntei.
- Euu... não sei descrever assim como você. Mas acho que consegui imaginar eles mesmo lá, sua mãe apostando caixa de cerveja, o que eles devem ter falado...
- E daria pra sentir isso tudo nos cinco minutos que levei também pra contar?
- Acho que não. - ela respondeu, movendo as sobrancelhas como um início de compreensão.

Mexi nos cabelos dela um pouco. Dei uma pausa e uma respirada.

- Então, mocinha... imagina agora que estamos já a algum tempo nesse processo de alongar o tempo, cada vez que conversamos, cada vez que dizemos o que gostamos, sentimos e vivemos. Nessa perspectiva, você ainda acha que as coisas estão indo rápido demais?

Ou sou eu quem tem sentido o tempo do jeito errado?