quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um conto sobre naturezas (ou "Só cratizando")

As pessoas tem naturezas, já notou?

Eu vivi pouco, mas o pouco do que vivi já foi suficiente para prender minha atenção em duas dessas naturezas. Haja mais, ou haja menos, essas duas eu vi e posso descrever. As outras, que por ventura existam, provavelmente são apenas combinações de elementos das duas que vou descrever.
 
A distinção das duas naturezas das pessoas está na raiz do pensamento que emana de cada. Parecem, para mim, que os desdobramentos para uma decisão ou posicionamento de uma pessoa sempre vão ter por base uma afirmativa, um "motto", um lema. Do tipo, aquele pensamento (vale lembrar que pensamentos não são o mesmo que palavras, vêm antes delas) primordial, ponta pé para ver o mundo.

Sócrates, com frequência, fazia uma coisa muito interessante: perguntar "porquês" na pessoa, até ela se contradizer. Tentei imitá-lo, mas, não sei se por falta de talento ou por motivo qualquer, não consegui desconstruir raciocínios como ele. Contudo, consegui algumas vezes chegar no motivo último da pessoa. Chamo de "motivo último" justamente a última resposta que uma pessoa pode dar no qual não há como responder mais porquês*. O motivo último é a chave para descobrir o pensamento primordial, base do raciocínio de uma pessoa. O pensamento que define a natureza da pessoa.

As pessoas da primeira natureza tem o seguinte pensamento: "Não poderei salvar ninguém, se antes não salvar a mim mesmo."

Ainda que o motivo último respondido não corresponda exatamente a essa frase, vai estar muito ligada a ela. Respostas como "porquê ninguém fará por mim, se eu não fizer" ou "cada pessoa tem que cuidar de si e de quem ama" traduzem ainda a mesma ideia central contida no lema das pessoas da primeira natureza: é preciso garantir o seu, depois o dos outros.

Já as pessoas da segunda natureza tem o seguinte pensamento: "É preciso pensar nos outros, antes de pensar em si."

Como na primeira, outras respostas possíveis e intimamente ligadas a esse pensamento seriam: " porquê se cada um só pensar em si, sempre haverá luta" ou "ninguém vive absolutamente sozinho, somos coletivos". Carrega sempre a ideia de que seus atos refletem no próximo, tanto quanto os atos do próximo refletem em si. Por isso, a preocupação com os outros em primeiro lugar.

As duas naturezas, a princípio, parecem que se complementam e que uma não exclui a outra. Ou seja, que uma pessoa poderia ter as duas naturezas ao mesmo tempo. Porém, não vi isso. Se ver, me conte.

Há muito pra falar sobre as duas naturezas. Elas vivem aparecendo nas redes sociais. Você consegue identificá-las? Sabe qual é a sua?

E, isso, se não tiver reparado, é um conto de política.


*Ah, uma observação importante: os "porquês" devem estar voltado a uma decisão ou comportamento de uma pessoa, não uma característica do mundo. Senão, a resposta última acaba sempre sendo religiosa (incluído aqui o ateísmo), por esbarrar no limite da lógica de Kant.

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