Era uma noite daquelas, fim de noite mesmo. "Fim de carreira", ela havia dito rindo. Havia mais brahmas espalhadas pelas mesas e cantos que pessoas pelo salão, e isso era um bom sinal.
No fundo do bar, um karaokê embalava os amigos dela e os amigos que ela acabara de conhecer e fazer.
Era a sua vez de cantar. "Valeu a pena, ê ê, valeu a pena, ê ê...". Ela dava uma espiada por trás do ombro, rindo. O coro improvisado, meio disperso, balançava os braços em ondas no ritmo da música, enquanto cantavam junto o sucesso do Rappa.
Quando a música acabou, acompanhado dos "uhuls", palmas e assobios, ela abraçou rápido um de seus amigos e se desvencilhou do público para o meu lado.
- Você é a melhor que nós temos! - eu disse, rindo, dando um beijo na testa dela. Ela riu também, se aconchegando perto de mim. Levantou os olhos castanhos, em direção ao meu olhar... mas com um semblante distinto no rosto.
- Algo de errado? - perguntei.
- Tô preocupada. - ela respondeu, ajeitando uma de suas madeixas loiras.
- Com?
- É que eu tenho pensado demais em você. E tá muito recente pra isso. Tá muito rápido, sabe? Tá, tipo, errado, não sei. Proibido.
Abaixei a cabeça pra olhar ela melhor. Respirei.
- É que você está sentindo o tempo do jeito errado. - falei cada palavra devagar, com calma. Sério, mas com rosto feliz.
O rosto dela logo mudou de preocupada para curiosa:
- Do jeito errado? Você vai ter que me explicar, porque não entendi.
- Bem... lembra quando você me contou a sua história de pequena, lá em Manaus, do boi preto e boi bom e da disputa entre eles?
- Sim, sim.
- Então, você não deve ter demorado mais do que cinco minutos pra contar. Mas cada palavra sua, cada descrição, me transportava até lá. Aos poucos, eu vivenciava através de você os anos que você passou lá, alongando os cinco minutos da história pra verdadeiros dias, meses, que você viveu e compartilhou. Posso até estar enganado, mas você enquanto contava, não teve a sensação também de alongar o tempo não?
Ela não respondeu, apenas olhou mais intrigada.
- Quando eu te contei da forma que meus pais se conheceram, como você se sentiu? - perguntei.
- Euu... não sei descrever assim como você. Mas acho que consegui imaginar eles mesmo lá, sua mãe apostando caixa de cerveja, o que eles devem ter falado...
- E daria pra sentir isso tudo nos cinco minutos que levei também pra contar?
- Acho que não. - ela respondeu, movendo as sobrancelhas como um início de compreensão.
Mexi nos cabelos dela um pouco. Dei uma pausa e uma respirada.
- Então, mocinha... imagina agora que estamos já a algum tempo nesse processo de alongar o tempo, cada vez que conversamos, cada vez que dizemos o que gostamos, sentimos e vivemos. Nessa perspectiva, você ainda acha que as coisas estão indo rápido demais?
Ou sou eu quem tem sentido o tempo do jeito errado?
domingo, 14 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Tatuagem
Cheguei no estúdio dela às dez e meia. Meia hora mais cedo do que o marcado, mas por sorte o outro cliente dela já havia saído. Eu estava sentado em sua sala de recepção: havia vários quadros com tribais, posters de bandas (Nirvana, Zeppelin, Green Day), uma estante - em cima uma jarra de vidro com uma rosa murcha, e a porta dobrável branca de onde saiu a Victoria.
- Engraçado, tinha certeza que você ia se atrasar. - comentou ela, no alto de seus um metro e meio de altura, com os seus jeans rasgados, a camisa de flanela, o all-star cano alto todo desenhado com bailarinas e sua touca preta, colocada em diagonal de forma que escondia um de seus olhos.
- Pô, eu também cara. - disse rindo. Dei um abraço para cumprimentá-la, nos afastamos e ela disse: "vamos?". Fiz que sim com a cabeça. Ela entrou pela porta dobrável e eu a segui.
Sua sala de "operações", como ela costumava brincar, realmente lembrava uma sala médica. Era toda verde clara, espantosamente limpa, com uma luminária de teto que centralizava a luz por cima de uma cadeira acolchoada, longa e com apoio para os pés e cabeça. Do lado, uma pia de inox, descanso para o braço e os equipamentos de trabalho. Do outro, uma escrivaninha com vários papéis desenhados, latas de tinta e um computador de mesa.
- Então... qual vai ser? - ela perguntou, enquanto lavava as mãos na pia.
Tirei o papel dobrado do bolso e entreguei nela. Ela enxugou as mãos, pegou o papel, olhou e levantou a sobrancelha.
- Um três e um oito? É isso?
- É isso. Dá uma estilizada neles, se tiver como.
- E vai ser na mão direita mesmo?
- Na mão direita. Nesse espaço aqui ó.
- Na mão direita. Nesse espaço aqui ó.
Ela pegou um lápis de ponta preta e marcou quatro pontos, como se fossem pontos cardeais, no espaço da minha mão que indiquei.
- Vai ser colorida ou só em preto? - ela perguntou.
- Só em preto.
Ela disse um "tá" meio cortado e apertou alguns botões no equipamento dela. A agulha deu um zumbido e parou.
- Senta aí. Olha, você escolheu uma área que vai doer um cado, ainda bem que o desenho é pequeno e só em preto. Mas você vai ter que aguentar, beleza?
- Senta aí. Olha, você escolheu uma área que vai doer um cado, ainda bem que o desenho é pequeno e só em preto. Mas você vai ter que aguentar, beleza?
- Tô ligado. - respondi, enquanto sentava na cadeira. Coração disparado, hei de confessar.
Ela foi até a escrivaninha, lavou novamente as mãos, calçou um par de luvas brancas descartáveis e voltou. Moveu a cadeira, ajeitando minha posição, pegou meu braço e colocou em cima do descanso.
Olhou sério pra mim e disse:
- Tá, antes de começar, preciso te perguntar uma coisa séria. Porque esse 3 e 8?
Ela foi até a escrivaninha, lavou novamente as mãos, calçou um par de luvas brancas descartáveis e voltou. Moveu a cadeira, ajeitando minha posição, pegou meu braço e colocou em cima do descanso.
Olhou sério pra mim e disse:
- Tá, antes de começar, preciso te perguntar uma coisa séria. Porque esse 3 e 8?
Respirei fundo. Devolvi o olhar:
- Pra lembrar-me sempre uma coisa.
- Pra lembrar-me sempre uma coisa.
Ela levantou de novo as sobrancelhas:
- Lembrar o quê?
Sorri:
- Que se eu tivesse antes um trinta e oito na mão, não estaria aqui pra contar esta história para ninguém.
terça-feira, 14 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Ai, deus me dera o amor
Se dividisse como se divide a terra
E coubesse um pedaço pra mim
Até mesmo emprestado, quem me dera!
Ela estaria comigo
Comigo, com ele e com ela
Aceitaria, se ao menos pudesse
Dividir amor me basta e festa
Pois dividir é o que me resta
Conquistei até onde poderia
É impossível seguir adiante.
O coração tão frágil dela
Já tem dono até mesmo antes
Do dono anterior
Abandonar o certame.
(e adivinha? não há tempo pra mim!)
Se dividisse como se divide a terra
E coubesse um pedaço pra mim
Até mesmo emprestado, quem me dera!
Ela estaria comigo
Comigo, com ele e com ela
Aceitaria, se ao menos pudesse
Dividir amor me basta e festa
Pois dividir é o que me resta
Conquistei até onde poderia
É impossível seguir adiante.
O coração tão frágil dela
Já tem dono até mesmo antes
Do dono anterior
Abandonar o certame.
(e adivinha? não há tempo pra mim!)
Em 1968, Jim Morrison cantava: "a música é o seu único amigo... até o fim."
O problema é que dia após dia você sabe que essa frase é mentira. Passe um recado no whatsapp e você sabe que é mentira. Uma volta na rua, uma conversa distraída. É mentira dele. Fale algo com que você goste e receba um sorriso: é mentira.
Mas. Contudo. Entrementes. No entanto...
Tem horas que só essa música traduz aquilo que te incomoda.
O problema é que dia após dia você sabe que essa frase é mentira. Passe um recado no whatsapp e você sabe que é mentira. Uma volta na rua, uma conversa distraída. É mentira dele. Fale algo com que você goste e receba um sorriso: é mentira.
Mas. Contudo. Entrementes. No entanto...
Tem horas que só essa música traduz aquilo que te incomoda.
sábado, 18 de abril de 2015
Quando Discordando
Em toda afirmativa
Após cada adjetivo
Cabe uma pergunta
Porquê?
Risque os adjetivos
Argumentação
Não comporta elogios
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Olhos
Ele veio até a clínica.
- Doutor, o senhor precisa me ajudar.
Se existe algum equilíbrio perfeito entre desespero e consciência, foi com esse equilíbrio que ele falou.
- Bem, qual é o problema, rapaz? - perguntei.
- São meus olhos, doutor. Eu preciso que você os arranque.
- Como é?
...
- Meus olhos, doutor. Não aguento mais viver com eles. O senhor poderia me ajudar?
Ajustei-me na cadeira da clínica. Olhei-o frente a frente. Inspirei, coçando o cavanhaque devagar.
- Não.
- Doutor, o senhor não est....
- Isto aqui é um consultório para problemas sérios, rapaz. Não tenho tempo para delírios desse tipo.
Ele abaixou a cabeça. Respirou fundo. Pausadamente, foi levantando o olhar até confrotá-lo com o meu.
- Escuta, seu filho da puta. Você deve estar achando mil merdas, me julgando, como todos julgam, mas o que te vim pedir aqui não é brincadeira. Eu tenho dinheiro que você precisar, tenho motivos.
Senti o sangue subir. Ele me afrontava. Considerei expulsá-lo da clínica naquele momento. Mas ele poderia estar armado. Lembrei de uma conversa de bar, que um amigo disse uma vez: "vai ver, as pessoas enlouquecem só porque ninguém as escuta"
- Porque diabos você quer que arranquem seu olhos?
Ele pareceu ter entendido minha mudança de ânimo. Mudou o dele também, refletiu um pouco, fazendo aquela mesma cara que um palestrante questionado por algo que nunca tinha pensando antes faz.
- Eles afrontam a sociedade. Eu gosto de olhar pra pessoas, doutor. Nasci assim, vou morrer assim. Mas as pessoas parecem que não gostam que eu olhe para elas. Elas ficam desconfortáveis, e não se importam nem um pouco em demonstrar isso.
O olhar fala, doutor. As pessoas são lindas, e eu olho para elas. É o meu jeito de dizer: você é linda. Mas não é isso que elas entendem. Estão acostumadas a ter medo de quem as olha, como se o olhar aprisionasse. Como se, apenas olhando, estivesse eu estuprando, violentando, roubando e matando elas.
O pior dos crimes, pois culmina em todos eles juntos, passa a ser o olhar. As pessoas nem olham de volta, evitando cometê-los. Aliás, nem olham pra mais nada. Foda-se se tem alguém sendo roubado, passando fome ou chorando: elas não olham.
Invejo elas, doutor. Queria ter esse auto-controle e não olhar pra mais nada.
Mas não tenho. Então, arranque meus olhos.
- Doutor, o senhor precisa me ajudar.
Se existe algum equilíbrio perfeito entre desespero e consciência, foi com esse equilíbrio que ele falou.
- Bem, qual é o problema, rapaz? - perguntei.
- São meus olhos, doutor. Eu preciso que você os arranque.
- Como é?
...
- Meus olhos, doutor. Não aguento mais viver com eles. O senhor poderia me ajudar?
Ajustei-me na cadeira da clínica. Olhei-o frente a frente. Inspirei, coçando o cavanhaque devagar.
- Não.
- Doutor, o senhor não est....
- Isto aqui é um consultório para problemas sérios, rapaz. Não tenho tempo para delírios desse tipo.
Ele abaixou a cabeça. Respirou fundo. Pausadamente, foi levantando o olhar até confrotá-lo com o meu.
- Escuta, seu filho da puta. Você deve estar achando mil merdas, me julgando, como todos julgam, mas o que te vim pedir aqui não é brincadeira. Eu tenho dinheiro que você precisar, tenho motivos.
Senti o sangue subir. Ele me afrontava. Considerei expulsá-lo da clínica naquele momento. Mas ele poderia estar armado. Lembrei de uma conversa de bar, que um amigo disse uma vez: "vai ver, as pessoas enlouquecem só porque ninguém as escuta"
- Porque diabos você quer que arranquem seu olhos?
Ele pareceu ter entendido minha mudança de ânimo. Mudou o dele também, refletiu um pouco, fazendo aquela mesma cara que um palestrante questionado por algo que nunca tinha pensando antes faz.
- Eles afrontam a sociedade. Eu gosto de olhar pra pessoas, doutor. Nasci assim, vou morrer assim. Mas as pessoas parecem que não gostam que eu olhe para elas. Elas ficam desconfortáveis, e não se importam nem um pouco em demonstrar isso.
O olhar fala, doutor. As pessoas são lindas, e eu olho para elas. É o meu jeito de dizer: você é linda. Mas não é isso que elas entendem. Estão acostumadas a ter medo de quem as olha, como se o olhar aprisionasse. Como se, apenas olhando, estivesse eu estuprando, violentando, roubando e matando elas.
O pior dos crimes, pois culmina em todos eles juntos, passa a ser o olhar. As pessoas nem olham de volta, evitando cometê-los. Aliás, nem olham pra mais nada. Foda-se se tem alguém sendo roubado, passando fome ou chorando: elas não olham.
Invejo elas, doutor. Queria ter esse auto-controle e não olhar pra mais nada.
Mas não tenho. Então, arranque meus olhos.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Brado da Vela
Sobre esse tanto de amor,
Vejo as pessoas amando
Vejo as pessoas amando
E me sinto traído.
Sei, o amor é a resposta,
Mas com tanto amor imploro
Mas com tanto amor imploro
Porra, não me deixem de
fora!
O amor é a resposta...
Não me deixem de fora
Não me deixem de fora
Não me deixem lá fora.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Os sábios sabem sobre o tempo
Se vai chover
Se vai dar flamengo
E conversam bem ratio
Mesmo quando escravizados
Em construções desumanas
Como mansões e estádios
Eles conversam, leves
Mesmo que presos
Carregando erros e pesos
Pelo pátio
Ou você ainda acha
Que bandido também não é sabio?
Eu quero entender melhor
Se o que vem aí é uma revolução
Ou se é nada,
Com mais vendas
E mais valas.
E você?
O que você quer entender?
Se vai chover
Se vai dar flamengo
E conversam bem ratio
Mesmo quando escravizados
Em construções desumanas
Como mansões e estádios
Eles conversam, leves
Mesmo que presos
Carregando erros e pesos
Pelo pátio
Ou você ainda acha
Que bandido também não é sabio?
Eu quero entender melhor
Se o que vem aí é uma revolução
Ou se é nada,
Com mais vendas
E mais valas.
E você?
O que você quer entender?
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
domingo, 25 de agosto de 2013
Não, não, eu não sou um político, Baillarina.
Bom Jardim - RJ, 24 de Agosto de 2013.
Hoje acordei pensando no que realmente me faz falta. Pensei sem querer em você. Assim, nessa de pensar e pensar, me imaginei te contando das coisas do balé... Tipo, sei que não é seu assunto favorito, mas você sabe que é o meu, então fica ela por elas, como dizem no ditado popular. Pois é, eu parei de fazer balé. E como sinto falta. E não sei dizer se sinto mais falta sua, ou do balé, mas me imaginei contando pra você a comparação, porque tem tanta coisa em comum...
Você lembra daquela peça no subsolo do Galpão? Você gravando desajeitado com a câmera, eu dançando. Haha, você não sabe o nervosismo que deu antes da apresentação. Eu estava calma, juro, até os quinze segundos antes da apresentação. Era uma peça sincronizada (será que você reparou isso?) e tinha coisas que se eu errasse, todo mundo podia errar junto. É, eu tava carregando uma boa responsabilidade naquela apresentação. Algumas meninas nunca tinham se apresentado. Poderia dizer até que elas me passaram o nervosismo delas pra mim, mas não foi isso também.
Foi mais... hmn... você lembra daquela vez que você mandou uma mensagem, dizendo que tinha algo pra me perguntar, mas sem explicar o que era? Foi a mesma sensação. Nos conhecíamos tinha pouco tempo. Nos encontramos na praça, naquele dia, eu com minha camisa da Nossa Senhora e você com cara de quem tinha saído de uma sessão de tortura, haha. Não lembro se você disse algo demais, mas lembro da expectativa que senti desse encontro. Nos dois casos, tinha uma coisa em comum: eram momentos importantes. Para mim, ao menos.
Ah, mas balé não era só apresentação e frio na barriga. Tinha ensaio. E dos ensaios, sempre sair dolorida, cansada, exausta... e satisfeita. Poucas coisas do meu esforço compensavam tanto quanto ensaiar no balé. Fazer alongamentos, exercícios, passos, ouvir quinhentas vezes o mesmo trecho duma música lenta só para aprender uma transição perfeccionista.... Doía. No final, muitas vezes já cheguei em casa apenas torcendo pra encontrar minha cama depois de um banho.
E na semana seguinte, mesma coisa. Mesma coisa, mesma coisa, até que eu percebia que nos alongamentos, estava conseguindo mais flexibilidade. Nos exercícios, mais força e velocidade, nos passos, mais sincronicidade, mais domínio. Era uma evolução lenta, mas incrível. Sinto falta dessa noção de que o esforço vale a pena, sabe?
E... pra não perder a comparação, contigo também teve coisas que doíam. Aquela mensagem que você demorava anos pra responder doía mais que chegar em casa com as pontas dos pés arrebentadas de ensaio. Ficar semanas sem te ver me cansava tanto quanto repetir dezenas de vezes o mesmo movimento. E quando você falava daquela K... ah, aí não tem nenhuma dor pra comparar. Era pior que tudo.
Só que, a fim de comparação, posso dizer que até dessas dores, aprendia. Você sabe, né?
Sinto falta do balé. Sei por quê.
E de você? Haha, tenta descobrir =)
Hoje acordei pensando no que realmente me faz falta. Pensei sem querer em você. Assim, nessa de pensar e pensar, me imaginei te contando das coisas do balé... Tipo, sei que não é seu assunto favorito, mas você sabe que é o meu, então fica ela por elas, como dizem no ditado popular. Pois é, eu parei de fazer balé. E como sinto falta. E não sei dizer se sinto mais falta sua, ou do balé, mas me imaginei contando pra você a comparação, porque tem tanta coisa em comum...
Você lembra daquela peça no subsolo do Galpão? Você gravando desajeitado com a câmera, eu dançando. Haha, você não sabe o nervosismo que deu antes da apresentação. Eu estava calma, juro, até os quinze segundos antes da apresentação. Era uma peça sincronizada (será que você reparou isso?) e tinha coisas que se eu errasse, todo mundo podia errar junto. É, eu tava carregando uma boa responsabilidade naquela apresentação. Algumas meninas nunca tinham se apresentado. Poderia dizer até que elas me passaram o nervosismo delas pra mim, mas não foi isso também.
Foi mais... hmn... você lembra daquela vez que você mandou uma mensagem, dizendo que tinha algo pra me perguntar, mas sem explicar o que era? Foi a mesma sensação. Nos conhecíamos tinha pouco tempo. Nos encontramos na praça, naquele dia, eu com minha camisa da Nossa Senhora e você com cara de quem tinha saído de uma sessão de tortura, haha. Não lembro se você disse algo demais, mas lembro da expectativa que senti desse encontro. Nos dois casos, tinha uma coisa em comum: eram momentos importantes. Para mim, ao menos.
Ah, mas balé não era só apresentação e frio na barriga. Tinha ensaio. E dos ensaios, sempre sair dolorida, cansada, exausta... e satisfeita. Poucas coisas do meu esforço compensavam tanto quanto ensaiar no balé. Fazer alongamentos, exercícios, passos, ouvir quinhentas vezes o mesmo trecho duma música lenta só para aprender uma transição perfeccionista.... Doía. No final, muitas vezes já cheguei em casa apenas torcendo pra encontrar minha cama depois de um banho.
E na semana seguinte, mesma coisa. Mesma coisa, mesma coisa, até que eu percebia que nos alongamentos, estava conseguindo mais flexibilidade. Nos exercícios, mais força e velocidade, nos passos, mais sincronicidade, mais domínio. Era uma evolução lenta, mas incrível. Sinto falta dessa noção de que o esforço vale a pena, sabe?
E... pra não perder a comparação, contigo também teve coisas que doíam. Aquela mensagem que você demorava anos pra responder doía mais que chegar em casa com as pontas dos pés arrebentadas de ensaio. Ficar semanas sem te ver me cansava tanto quanto repetir dezenas de vezes o mesmo movimento. E quando você falava daquela K... ah, aí não tem nenhuma dor pra comparar. Era pior que tudo.
Só que, a fim de comparação, posso dizer que até dessas dores, aprendia. Você sabe, né?
Sinto falta do balé. Sei por quê.
E de você? Haha, tenta descobrir =)
domingo, 28 de julho de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
Parafraseando Cazuza
Por mim, estariamos subindo as paredes
De tanto amor, namorida
Não só matando a sede
Mas se afogando na saliva.
De tanto amor, namorida
Não só matando a sede
Mas se afogando na saliva.
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